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Compulsão alimentar: como identificar, prevenir e vencer o problema

Segundo psicóloga, pensamentos repetitivos desencadeados por situações-estresse geram repercussões físicas e emocionais. Para liberar tensão acumulada de problemas que são incapazes de solucionar, pessoas procuram válvulas de escape como a comida

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Por Hugo Oliveira, da Comunicação Sem Fronteiras

Um Impulso incontrolável de se alimentar em grandes quantidades, mesmo não tendo fome, e por repetidas vezes ao longo do dia. Segundo a psicóloga Lorena Dias de Sousa, especialista em terapia comportamental-cognitiva, neuropsicologia e terapia energética-corporal, o quadro descrito acima não é uma simples gula,  mas o indicativo de uma doença psicológica cada vez mais comum: o transtorno de compulsão alimentar.

Apesar de não haver dados oficiais sobre o número de pessoas no Brasil que são acometidas por esse problema, especialistas afirmam que esse é um dos distúrbios alimentares mais frequentes, principalmente entre os jovens, conforme demonstra uma pesquisa realizada pela USP em 2013. O estudo ouviu 1.167 adolescentes e constatou que 10,3% deles sofriam do problema, que está muito ligado à ansiedade, depressão e obesidade. Levantamento feito pela Secretaria de Estado de Saúde de São Paulo em 2014 aponta que 77% dos adolescentes têm propensão a desenvolver algum distúrbio alimentar.

Conforme explica a psicóloga Lorena Dias de Sousa, a compulsão alimentar é um transtorno caracterizado por episódios de ingestão de alimentos em grandes quantidades, um volume extra, muito mais do que a pessoa precisaria para ficar saciada. “Durante a crise, a pessoa não tem consciência de que está exagerando e não tem capacidade de frear o comportamento. Depois do episódio, ela se julga negativamente, em um processo de culpa e autocrítica”, explica.

A psicóloga completa: “Pessoas nesta condição, comem não para matar a fome, mas para saciar uma insatisfação pessoal. É uma doença com muito fundo emocional”. Para Lorena, as crises são engatilhadas por situações de estresse. Problemas no trabalho, em casa e demais situações de conflito, para alguns indivíduos, funcionam como gatilhos, fatores desencadeadores de pensamentos repetitivos negativos.

Causas?

Segundo ela, esses pensamentos provocam mudança de humor e preparam o corpo para ficar numa condição hiperativa, com liberação de hormônios como adrenalina e noradrenalina. “Isso gera uma tensão acumulada que as pessoas vão tentar amenizar de alguma forma. Quem tem esse transtorno tenta se livrar desses problemas comendo”, afirma Lorena Dias.

Ela explica que durante a alimentação, a pessoa sente uma sensação de descarga emocional e se tranquiliza temporariamente, mas tudo acontece de novo quando a pessoa passa por outra situação de estresse. “A compulsão é uma tentativa da alma humana de recriar situações-conflito para que a pessoa resolva. Sem consciência disso, além de não solucionar, acumula o problema, gerando necessidade de aliviar a tensão vorazmente”, esclarece.

Neste ponto, a reação do organismo a essa situação é como se fosse um vício. “A pessoa que joga, que compra, passam pelo mesmo processo. Durante o processo se sentem aliviadas e uma rápida sensação de prazer. Depois, vem a autocrítica e negatividade. Geralmente, a doença acomete pessoas ansiosas, que têm dificuldades de solucionar problemas e que encontram na alimentação uma válvula de escape para amenizar problemas que enfrentam”, diz a especialista.

Diagnóstico

Se for uma situação que se repete três ou mais vezes por semana, este é um sinal para que a pessoa fique alerta e procure ajuda. “Pensar em como funciona sua relação com a comida também ajuda. Se perguntar se está usando a comida para saciar a fome ou se está atribuindo ao alimento outras funções, como a de válvula de escape, uma forma de se tranquilizar diante de um problema. Se a for a segunda opção, é grande a chance de se tratar de uma perturbação emocional”, explica Lorena.

Normalmente, esclarece a psicóloga, uma avaliação profunda sobre a condição dessas pessoas revela que a vida está pobre de estímulos positivos e de prazeres. “A pessoa vai tentar suprir essa carência de alguma forma e quem sofre de transtornos alimentares, transfere essa tarefa para a comida”.

Prevenção e tratamento

A prevenção é estabelecer uma relação racional com a comida, segundo Lorena. “A pessoa afetada sente a negatividade do problema, mas as razões para essas manifestações se encontram no inconsciente, ou seja, ela não tem noção do que pode ser a causa. Então, a melhor prevenção é estabelecer uma relação racional com a comida: estou usando o alimento para me nutrir ou serve para atender uma necessidade emocional, como falta de companhia e dificuldades de relacionamento?”, sugere.

O significado atribuído a essa comida é muito pessoal e vai depender da história de vida de cada um. “Se a pessoa valoriza o prazer de comer acima de tudo, este é um sinal de problema. A pessoa está dependente, não consegue ficar sem. A possibilidade de não ter o que comer é algo catastrófico e essa característica é revelada por diversos pacientes que enfrentam o mesmo problema”.

A psicóloga apresenta alternativas viáveis para colocar um ponto final no problema. “Pessoas que enfrentam o problema precisam de ajuda terapêutica, para identificar e solucionar o que vem originando os pensamentos repetitivos. Pacientes também devem buscar orientação de nutricionistas e até de psiquiatras, caso o impulso para comer seja muito forte”.

Dieta x crises

Segundo Lorena, grande parte dos pacientes com transtornos alimentares enfrentam comorbidades como sobrepeso e obesidade. Pelo problema, a maioria não consegue emagrecer e deseja uma solução milagrosa para o problema. “Muitos iniciam regime e querem resposta rápida, resultados milagrosos. Além disso, não querem emagrecer apenas para atender um padrão de beleza ou ser saudável, mas para poder comer de novo”.

Para a especialista, a dieta pode ser uma coisa positiva, desde que não seja muito restritiva. “Para muitas dessas pessoas a alimentação representa um dos poucos ou o único prazer que se tem na vida. Por isso, a retirada de alimentos saborosos de forma radical pode impulsionar o desencadeamento da crise. Ou seja, vai aumentar a tensão e o nível de ansiedade. Dieta precisa ser equilibrada”, aconselha a psicóloga.

Lorena revela que emagrecer é um processo, um tripé formado por alimentação saudável, atividade física e equilíbrio psicológico e a dieta apenas pode não ser suficiente para entregar o resultado esperado. “Quem tem problema com peso quer lidar apenas com a questão do alimento. A dieta vai restringir os alimentos mais saborosos e a pessoa dificilmente vai resistir ao processo se não tiver equilíbrio psicológico”.

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